Análise 5 Anos Barómetro PME: da Pressão nas Vendas ao Risco Financeiro

análise de padrões - 5 anos

Título: Da pressão nas vendas ao risco financeiro: os novos desafios das PME

A evolução do Barómetro PME Magazine mostra uma mudança profunda nas prioridades das empresas. A retenção de talento tornou-se mais crítica do que vender, enquanto cresce a exposição ao financiamento bancário e persistem fragilidades na gestão de risco e tesouraria. A sustentabilidade e transformação digital perdem centralidade relativa.

Desafios

Os desafios sofreram uma grande mudança desde o início do estudo. Inicialmente (2021) o grande foco das empresas centrava-se sobretudo nas vendas e na transformação digital. O panorama atual está agora mais centrado nas pessoas e nas vendas.

O que é que isto nos diz? Que existe uma crescente preocupação em manter o essencial, aquilo que faz as empresas funcionar, as pessoas. Mais do que vender para manter as empresas a funcionar, torna-se cada vez mais importante reter o talento de forma a dar continuidade ao desenvolvimento do negócio. As vendas passam assim a ser uma consequência do talento retido, do bom trabalho prestado.

Vemos também que este shift é mais notório em empresas já com alguma dimensão (vulgo médias). Por outro lado, nas empresas mais pequenas (micro), os desafios são mais homogéneos (vendas, dinheiro e marketing, por exemplo).

Sustentabilidade

Inicialmente não era uma preocupação, não era registado como um desafio. Em 2023 verificamos o contrário e atualmente volta a concluir-se o ciclo voltando ao início – de todos os desafios é aquele que é menos desafiante, ou onde está uma menor preocupação.

Mais que uma moda, passou a centrar a realidade e quotidiano das empresas, por várias questões. Desde a exigência dos consumidores, hoje mais preocupados, a questões mais legais/imposições regulamentares ou até mesmo para redução de custos. Apesar disso, no último estudo constatámos que o tecido empresarial Português, no que se refere às PME está um pouco letárgico. Comparado com anos transatos foram registados menos processos de qualidade ou certificações. Assim em termos operacionais (processos) o foco mantém-se em conseguir o “mínimo”, neste caso ISO9000, que apesar de não ter um impacto direto na sustentabilidade tem-no de forma indireta, ou seja, tornar os processos mais eficientes (menos recursos usados para o mesmo resultado).

Ao nível ambiental, tem-se registado um aumento da falta de conhecimento sobre como diminuir o impacto ambiental (de 2021 a 2024, diminuição de 7pp). Existe assim uma grande falta de conhecimento sobre as formas de o combater, ou, no limite, interesse em os conhecer. Aqui poderemos especular diferentes cenários como os custos que acarretam, o impacto indireto que o ambiente tem no negócio e a forma gradual que poderá causar esta inação – não acontece de forma visível, logo não é preocupante – cerca de 80% indica que não sente pressão pela emergência climática.

RH, Finanças e Vendas

Ao nível dos RH a tendência registada nos últimos anos do estudo é a da manutenção dos quadros – 58% das empresas participantes indicou que não houve retenção nem aumentos no quadro de pessoal. Quer isso dizer que o desafio “Pessoas” é assim justificado.

As empresas estão neste momento à procura de estabilidade e neste caso estabilidade significa não perder colaboradores. Isto é especialmente importante em microempresas. Nas empresas maiores (pequenas e médias), já existe uma maior preocupação em recrutar novos quadros, estando os números nos dois dígitos (35% e 27%) pelo menos no primeiro patamar (aumento de 20%).

Por sua vez, no que às finanças diz respeito vemos 2 padrões diferentes. Pequenas e Médias empresas a necessitarem de um maior nº de apoios financeiros enquanto as Micro a dependerem menos. Observamos também que o maior meio de obter financiamento é a banca. Foi também este o apoio mais perspetivado para o início de 2025. Existirá então um problema na operação das empresas? Estará o tecido empresarial português a incorrer num risco elevado de endividamento para manter as suas operações? São tudo questões que se levantam, mas que para as quais não temos resposta. Ainda assim, poderão desvendar o que poderá ser o futuro de muitas destas empresas.

Certamente não será por uma questão de recebimentos e pagamentos dos seus produtos ou serviços, porque aqui existe equilíbrio, estando o grosso a pagar e a receber entre o pronto pagamento e 30 dias. Qual então a necessidade, desta exposição?

Uma das explicações que podemos encontrar são sobretudo as dificuldades encontradas ao nível da gestão de tesouraria e fluxo de caixa. Independentemente das condicionantes, a verdade é que existe um grande desconhecimento sobre ferramentas de gestão de risco – apenas 17% das empresas participantes as utilizam. Aqui a tipologia poderá impactar esta perceção, tal como os dados nos mostram – empresas de menor dimensão (Micro e Pequenas) têm uma menor necessidade deste tipo de ferramentas.

Em que se baseiam então as empresas para fazer face ao risco, ou a algo que poderá ser classificado como risco? Relatórios da própria empresa, o que nos leva a conclusão, que grande parte do tecido empresarial português (PME) ainda tem uma gestão financeira muito pouco, vamos lhe chamar “profissional”, quase de mercearia.

Existem, porém, outros fatores que condicionam também o risco, desta vez sobre os quais as empresas têm pouco controlo. Falamos então dos mercados financeiros e da economia. Períodos de recessão económica têm grande impacto neste tipo de empresas (sobretudo nas micro e pequenas).

Por fim, nas vendas, conseguimos inferir dois panoramas diferentes. O primeiro, mais negativo onde as empresas acabam por aumentar as suas vendas, mas consequentemente acabam também por pedir mais apoios financeiros, o que poderá indiciar algumas falhas na gestão financeira. O segundo, mais positivo, é que ao aumentarem as vendas recorrem também a apoios financeiros para conseguirem investir mais e consequentemente desenvolver o seu negócio.

Exportações e E-commerce

As exportações têm aumentado com o desenrolar do estudo - ainda que face a 2024 se tenha mantido relativamente iguais.

Hoje participam mais empresas com esta característica. Das que exportam, o grosso, são serviços (57%). Ao nível de mercados, o Europeu (sobretudo Espanha e França) é aquele que tem maior peso, evoluindo para os 92% de 2023 para 2024, seguido do Africano - 33%.

Ao nível do desejo de exportar, são mais as empresas que não exportam que aquelas que desejam exportar. Este desejo ou falta dele, poderá dever-se ao grosso do tecido empresarial, principalmente composto por microempresas. Como tal, poderão não ter a dimensão/capacidade necessária para poderem exportar e como tal o desejo de o fazerem desvanece.

Relativamente ao e-commerce. Encontra-se dentro de um dos desafios com maior peso no início do estudo - Transformação digital. Apesar do fulgor inicial, foi perdendo importância ao longo dos anos, embora sem impacto específico neste ponto. Isto porque, tirando o ano de 2022, as vendas no e-commerce têm vindo sempre a aumentar. À data do último estudo, cerca de 30% das empresas já fazem vendas através deste meio – 26% no presente

Por tipologia, observamos que é nas pequenas empresas onde esta incidência é maior – 27,3% já tem metade da sua faturação nesta componente. Podemos então inferir que, por oposição aos meios tradicionais de vendas, estes meios ou canais são mais atrativos. Permitem a este tipo de empresas um maior alcance de mercado, maior exposição dos seus produtos/serviços e uma malha mais fina, e consequentemente estratégica, para chegar de forma mais eficiente aos seus targets.

Parcerias Estratégicas

A maioria das empresas possui parcerias estratégica (cerca de 56%) em áreas consideradas core – Marketing e Publicidade (46,7%); Tecnologia e informática (34,8%) e Formação (17,4%). De notar que esta última surge neste presente estudo, algo que não aconteceu no passado. Podemos inferir que poderá estar relacionado com o maior desafio percecionado pelas empresas – Pessoas. Neste caso, numa maior necessidade de qualificar os seus quadros.

Apesar disso, verificamos algumas diminuições face a outras áreas como: Logística, Produção e compras e Vendas.

Pelas diferentes tipologias, notamos algumas diferenças ligeiras. Com as micros e médias empresas a registarem uma maior percentagem de parcerias. Ainda assim, é curioso notar que à medida que as empresas crescem na sua tipologia, cresce também a necessidade de parcerias cujo objetivo é o desenvolvimento e promoção das empresas, tal como os dados sugerem pelo aumento do peso do Marketing e publicidade – micro 36,5%; pequenas 57,7% e médias 64,3%.

Marketing

O orçamento para o marketing situou-se num valor médio de próximo dos 7% ao longo dos diferentes anos do estudo. Embora tenham existido períodos onde houve um claro desinvestimento (2022). O último ano registou alguns aumentos, ainda que ligeiros, sobretudo nas percentagens de 5% e mais de 6-10% - 12,0pp. e 7,0pp., respetivamente.

Subdividindo a temática em duas – Online e Offline. Conseguimos perceber que no primeiro a aposta feita pela maioria das empresas ocorreu ao nível das Campanhas em Redes Sociais e SEM (search engine marketing), enquanto no segundo, a aposta passou por Rádio e TV e Marketing Promocional - Brindes.

Para 2025, as previsões apontam para uma redução neste tipo de investimento comum a ambos os formatos. Apesar de estas previsões ainda padecerem de confirmação o espectável é que aconteçam da seguinte forma em SEM (online) e Marketing promocional (offline).

Transformação digital

Face ao início do estudo, o investimento na transformação digital foi sempre registando valores superiores de ano para ano. E como tal poderá ser essa a razão para ter perdido protagonismo enquanto desafio. Onde a par das vendas era o 2º maior.

Ainda assim, em média, as empresas participantes alocam cerca de 19% do seu orçamento anual nesta transformação.

Quanto ao restante processo de transformação, existem sentimentos opostos. Vejamos, se por um lado o grosso das empresas participantes indicam que a inovação é resultado de trabalho conjunto ou existe uma atitude inovadora em alguns produtos e serviços, por outro, esta inovação acontece (vamos inferir) de forma espontânea – ocorre ocasionalmente, ou por um acaso.

Os dados fundamentam exatamente isto. Apenas cerca de 6% indica ter um programa estruturado de inovação com o intuito de gerar mudanças transformacionais. Quer isto então dizer que a inovação, além de um acaso, é algo reativo e não estudado ou pensado.

Não há assim uma grande preocupação ou interesse (monetário ou não) em querer inovar ou pelo menos estar a par das novas tendências do mercado, pelo menos neste capítulo da transformação digital. A inteligência artificial, tema em voga nos dias que correm e potencialmente acessível a toda a gente, incluindo empresas, apenas é conhecido em 51% dos casos. Se calhar até já ouviram falar, mas fundamentalmente não sabem como podem ser aplicadas ao negócio. Isto fica muito claro nos dados obtidos, com apenas 22% das empresas participantes a indicarem que acompanham de forma ativa esta evolução. É quase como a árvore que cai na floresta, se ninguém estiver lá para ver ou ouvir que caiu, será que efetivamente caiu? Aqui é igual, existe uma grande vontade em acompanhar, em evoluir, mas na prática não há muitas empresas para aí viradas.

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